Ballet Sandra Silvia - O Ballet é também para Homens?? Voltar

PARA REFLETIR

30/04/2000 - Estranhos no ninho

Discriminação ainda atinge os bailarinos

O ano 2000 chegou, o próximo milênio está por vir e algumas coisas insistem em não mudar. Como conceber que, ainda hoje, uma manifestação artística importante como a dança continue possuindo um estigma tão forte? Em um país latino e machista como o Brasil, a incursão de homens pelo balé é sempre associada ao homossexualismo. Isso provoca a inibição de potenciais talentos, criando uma verdadeira carência de artistas na área. A professora Débora Tabra, coordenadora da Escola de Dança do Teatro Guaíra, conta que a instituição na qual trabalha chega a oferecer bolsas para meninos e rapazes interessados na arte do balé. "O mercado precisa tanto de homens que eles nem precisam dançar maravilhosamente bem para entrar em algum grupo", diz. A formação tardia dos bailarinos brasileiros em relação às meninas aumenta a distância técnica entre profissionais dos dois sexos. Para Débora, o preconceito sobre a dança é resultado de falta de compreensão da arte em si. "Quem conhece o papel masculino dentro do balé sabe que é preciso muito preparo físico e virilidade". Contudo, muita gente ainda acredita que os bailarinos fazem os mesmos movimentos delicados e suaves das moças. O interesse de meninos pela área muitas vezes é podado pelos próprios pais. Além de todas as questões que envolvem a sexualidade, o fator econômico acaba sendo determinante no discurso anti-balé. "Minha mãe teve um certo receio no início, pois acreditava que a profissão não dava futuro", lembra o bailarino Márcio Ribeiro, de 22 anos. Estudante do 2º ano da FAP e aluno do curso do Guaíra, ele já deu aulas e atualmente trabalha com dança no Parque da Mônica. A qualidade de vida trazida pelo balé surpreendeu a família de Tales Gabriel Bueno, de 11 anos. "Ele ficou mais solto", diz Rosângela Viana, mãe do garoto. No entanto, Tales ainda tem problemas em assumir para os amigos sua atividade. "Ele não conta para todo mundo. Os meninos do prédio às vezes vêem ele chegando da aula e tiram um sarro, mas digo para encarar tudo com bom humor". Rodrigo Vieira, 18, dança há quatro anos e conta que o preconceito muitas vezes acontece dentro da escola de balé. "Muitas meninas soltam piadinhas de mau gosto. Já vi garotos que chegaram a chorar". Para ele, um grande problema do balé brasileiro é a falta de uma didática mais direcionada para os homens. Sempre tendo aulas com mulheres, os bailarinos acabam adquirindo os trejeitos de suas colegas. Débora Tabra conta que a Escola do Guaíra se empenha em desmistificar o balé para os rapazes. "A gente começa mostrando os tipos de dança que eles aceitam, até chegar na clássica". Com os alunos menores, os professores procuram mostrar casos de bailarinos conhecidos e respeitados. De acordo com Débora, os meninos mais novos normalmente não apresentam problemas em relação ao preconceito contra a dança. Porém, a resistência de alguns pais de adolescentes ainda é forte. "Muitos jovens param de dançar pelo fato dos responsáveis pressionarem. Eles acabam dando uma pausa para conseguir uma certa independência financeira, então retomam os estudos". Para a professora Maristela Teixeira, coordenadora artística da Escola do Balé Bolshoi, em Joinville, a solução para o fim da discriminação aos bailarinos deve partir dos próprios profissionais da área. "É preciso batalhar por reconhecimento, não apenas reclamar de falta de espaço". Débora Tabra discorda um pouco de sua colega catarinense: "Acho que os profissionais de dança já fazem mais do que podem. São artistas só pelo fato de trabalharem enfrentando situações tão difíceis". Mas ela afirma que os bailarinos devem se preparar melhor, pois só assim será possível mostrar seu potencial para quem pode ajudá-los a mudar esse quadro. Contra o preconceito enfrentado pelos bailarinos em seu cotidiano, Márcio Ribeiro aconselha apenas a tranqüilidade. Para ele, a segurança de estar fazendo o que realmente gosta é o mais importante. O psicólogo Perci Klein compartilha da mesma opinião, mas acredita que os rapazes devem estar preparados para enfrentar momentos desagradáveis. "É preciso ter noção das conseqüências, pois sempre vão ser motivo de piadas e risos". De acordo com Klein, as famílias não têm muito o que fazer se a dança é a verdadeira vocação de seus filhos. Para ele, a questão é cultural e está relacionada com os valores apresentados nos meios de comunicação. Se um menino brasileiro aprende desde cedo a brigar e jogar bola, a mesma coisa nem sempre acontece em outros países. "Na Rússia, se um garoto entra para o Bolshoi, a família fica na maior alegria", diz.

Gazeta do Povo - Caderno G

16/10/1999 - Balé é mulher?

Ernesto Gadelha especial para o Vida & Arte

Há algum tempo, uma renomada rede de televisão brasileira transmitiu uma reportagem sobre a companhia de balé do Kirov, uma das mais conceituadas do mundo. Um repórter que nesta gravação trabalhava, ao ver os bailarinos durante um ensaio, teceu um comentário que, por descuido técnico, foi ao ar em cadeia nacional: "isso é coisa de veado". Não sabemos e dificilmente saberemos se isso foi uma dessas brincadeiras que se fazem entre colegas de trabalho ou se o autor de tal afirmação realmente acreditava no que estava dizendo. Certo é porém, que esse fato traduz uma idéia de certa forma generalizada em nossa sociedade com respeito ao bailarino profissional. Levei muito tempo para vencer o preconceito que cercava qualquer atividade relacionada ao homem na dança acadêmica e comecei a tomar aulas de balé aos vinte anos de idade. Apesar de ter alcançado a profissionalização, muito lamentei ter perdido alguns preciosos anos considerando o que os outros iriam pensar caso soubessem que eu estava freqüentando uma escola de balé. Hoje sei que não fui o único a vivenciar esse tipo de problema e que muitos podem ainda passar por isso. Sendo de um país povoado por bailarinos natos e no qual, em quase todas as festas e comemorações populares, dançar é quase uma necessidade, não conseguia entender de onde vinha e onde tinha começado o preconceito com respeito àqueles que se dedicavam profissionalmente à dança. Cheguei a pensar que isso fosse fruto de ignorância ou de uma falta de tradição cultural nesse campo artístico. Qual não foi minha surpresa ao chegar à Europa, berço desta arte no ocidente, e perceber que as opiniões com respeito a esse tema não diferiam muito daquelas que eu conhecia no Brasil. Fazendo uma retrospectiva histórica da dança, percebe-se que esta, desde os primórdios da civilização, foi e continua sendo uma atividade inerente à existência humana. Esteve presente nos ritos, nos exercícios de preparação para a guerra, nas formas mais variadas de expressão popular, na educação da nobreza aristocrática, nas artes cênicas, etc. Em todas estas variantes houve sempre uma participação masculina intensa e que freqüentemente chegava a suplantar a da mulher. Os papéis de destaque dos balés clássicos de toda a fase pré-romântica, por exemplo, eram dançados quase que exclusivamente por homens, e são inúmeros os nomes de bailarinos que nesta época tornaram-se astros de projeção internacional. Somente com o advento das sapatilhas de ponta e a chegada do romantismo é que o homem foi perdendo seu espaço cênico, até tornar-se gradualmente um mero suporte para as bailarinas, cujos papéis passariam a ocupar o centro das narrativas românticas. A este período remete-se provavelmente a associação entre balé e feminilidade, associação esta que se estendeu a quase todos os outros tipos de danças teatrais ocidentais, criando uma mentalidade que ainda hoje prejudica o acesso do homem a esta atividade. No decorrer deste século muito foram os coreógrafos e bailarinos que, tanto no balé clássico como moderno, ajudaram a resgatar o espaço masculino nos palcos e popularizar esta arte junto ao público. Percebe-se no entanto, que ainda persiste uma grande resistência por parte da sociedade em aceitar a prática da dança como um hobby ou uma opção artística normal para o homem. Prova disso é a quase inexistência de rapazes nas escolas especializadas. Insiste-se ainda em estigmatizar o balé como um amontoado de maneirismos estereotipados e uma atividade basicamente feminina. A afirmação do repórter é apenas mais uma confirmação desta mentalidade. Entretanto, alguém que tenha visto nomes como Baryshnikov ou Bujones dançando peças como "Le Corsaire'' ou "Don Quixote'', sabe que esse estigma não corresponde à realidade. O que tem a dança em si a ver com a natureza sexual dos bailarinos? Não parece um pouco fora de lugar considerar que o simples fato de exercitar-se em algum esporte ou em alguma arte marcial, tocar um instrumento, pintar ou cantar venha a mudar radicalmente o que em princípio já deveria estar formado na idade em que se iniciam estas atividades? Porque seria diferente com a dança? A arte pode sim recriar o ser humano, mas somente a partir de uma essência já existente. Vivemos em uma sociedade mecanizada e sedentária, onde o stress faz parte do dia-a-dia e as atividades físicas tendem a reduzir-se ao mínimo necessário. Há, em contrapartida, uma conscientização crescente de que o ser humano necessita de movimento para um bom funcionamento do corpo e da mente. Essa tendência, associada aos ideais de beleza física atualmente vigentes, tem ocasionado uma grande procura por algum tipo de atividade que venha a trabalhar, de uma forma ou de outra, especificamente com o corpo. Percebe-se que, entre o público feminino, a dança é uma das modalidades preferidas, coisa que não acontece em se tratando dos homens. Provavelmente estarão fazendo "body building'' ou algo parecido, que seja "conveniente'' para o gênero masculino. Interessante é observar também que, desde a infância até a adolescência, freqüentar uma escola de dança é quase um "must'' para as meninas, enquanto que a presença de garotos é praticamente inexistente neste setor. Será que todos aqueles meninos que não estão ali chegaram espontaneamente à conclusão que dançar é coisa de mulher? Sabemos o quanto importa nos dias de hoje resultados que possam ser quantificados. Nos esportes quase tudo pode ser quantificados. Nos esportes quase tudo pode ser traduzido em números. Na dança não. Entendemos que, para os futuros "guerreiros dos números'' talvez seja importante aprender a calcular suas capacidades e seu poder de concorrência desde cedo e que seus pais se preocupem e os estimulem nesse sentido. Já na dança, o que se pode medir na dança? Em que tabela serão mensuradas coisas subjetivas que acontecem quando alguém está movendo-se literalmente com o corpo e alma e vivenciando sensações que a razão desconhece mas o corpo sente? É difícil, provavelmente impossível. Talvez seja este mais um fator marcante para que os pais prefiram pôr os meninos a se exercitarem em "esportes contábeis'', apesar da prática da dança trazer todos os ganhos que os esportes em geral oferecem, e contar com a vantagem de ser um grande meio de expressão, uma manifestação artística. A dança é um dos veículos de comunicação mais antigos que o homem conhece, pois origina-se do movimento, que por sua vez é um dos elementos que caracterizam a vida. Por isso mesmo é uma lástima continuar privando meninos e rapazes de uma experiência tão pertinente à natureza humana. Quanto tempo vamos continuar pasmando ao ver nossos bebês, que mal conseguem ficar em pé ou falar, já ensaiando suas primeiras danças ao ouvirem algum ritmo, sem que percebamos o que está por detrás disso? Quanto tempo vamos continuar esperando que nossos garotos desaprendam a dançar? Balanchine disse: "balé é mulher". Béjart respondeu que a dança é masculina. Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, balé não é mulher e dança não é só balé. Dançar é humano, demasiado humano.

Ernesto Gadelha é bailarino

O Povo - Vida & Arte (material retirado do site Uma Bailarina)

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